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    Camilla Sartorato é a responsavel por este blog. É jornalista e reside em Londrina/PR.Atualmente trabalha na Associação de Pais e Amigos de Pessoas com Síndrome de Down (APS DOWN), prestando serviços de Assessoria de Imprensa. Além disso, fez parte da Comissão Organizadora do V Congresso Brasileiro sobre Síndrome de Down, realizado setembro de 2008 em Londrina. Contato: camillasbr@hotmail.com

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Procurador do PR é nomeado desembargador e ponto!

Deixemos de lado as divinizações e características. O procurador Ricardo Tadeu da Fonseca, 50 anos, possui autonomia, independência e, conseqüentemente, méritos próprios para ter sido nomeado desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 9ª Região, na última quinta-feira (16) em Curitiba.

Ricardo Tadeu da Fonseca. Nomeado desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 9ª Região

Ricardo Tadeu da Fonseca. Nomeado desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 9ª Região

Fonseca foi um dos responsáveis pela criação da Convenção Internacional sobre Direitos de Pessoas com Deficiência, que no último dia 09 (quinta-feira), comemorou um ano desde sua ratificação. A iniciativa é um marco importante na luta por uma sociedade inclusiva. A Convenção baseia-se nos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, que reconhece a dignidade e o valor inerentes e os direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana como o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo.

A Agência Estado, seguida por tantos outros portais de informação, publicou o fato de um integrante do Ministério Público, com deficiência visual, ser o primeiro com esta deficiência a assumir esta posição no país: Procurador do PR é o primeiro juiz cego do Brasil. Desculpem-me, caros jornalistas, mas por que tanta comoção? Não divulgamos matérias e reportagens quando outros indivíduos públicos por estarem acima do peso, assumem cargos imponentes, ou mesmo, caracterizamos o Presidente da República como alguém extremamente singular por não ter o dedo mínimo.

Comumente utilizados, os termos como “santo”, “pessoa iluminada”, “super-herói”,  não colaboram na construção de um ambiente inclusivo, uma vez que, ainda que superficialmente pareçam uma alternativa “sensível”, afastam as pessoas com deficiência das pessoas comuns. A desigualdade refletida através destes atos dificulta, por exemplo, a luta por direitos civis destes indivíduos.

Esta discriminação se manifesta, também, através da aplicação de adjetivos generalizantes, como é o caso, por exemplo, de publicar informações afirmando que um empregado com deficiência é mais leal e produtivo que outro não-deficiente. Em outros casos, utilizam-se da homogeneização, que compreende caracterizar um determinado tipo de deficiência ligando-a com a prática produtiva de atividades ou sentimentos. Por exemplo, escrever que crianças com síndrome de Down têm, necessariamente, um dom para as artes ou são muito afetuosas. Pois não são, já que interagem com o ambiente e desenvolvem a personalidade com qualquer individuo.

Resumidamente, é preciso ter cuidado ao divulgar tais informações. A mídia como formadora de opinião através de notícias como esta é capaz de alimentar, ainda mais, o preconceito e descriminação que cerca as pessoas com deficiência. Todo, e qualquer, indivíduo tem suas limitações, assim como também todos somos diferentes.

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5 Respostas

  1. Bingo !!

    Grande Camilla, é isso mesmo, sejamos menos “especiais” e mais inclusivos

    Abraços

    Fábio Adiron

  2. Vão me disculpar, mas discordo dos dois veementemente. As lutas pelas quais passamos, as inacessibilidades, as discriminações, preconceitos, dificuldades, não fazem do que Ricardo Tadeu conquistou uma coisa comum. A diferença está justamente em sua cegueira. Eu não daria tanto valor se ele não fosse cego, porque sei, como pessoa cega, o que essa característica significa em nossas vidas. Viva o título conquistado, Ricardo Tadeu, o primeiro juiz cego do Brasil. E é justamente porque nossa sociedade evoluiu na inclusão das pessoas com deficiência que ele pode conquistar o lugar que conquistou agora. Existe demagogia nas reportagens? Existe destaque da diferença? Sim, existe demagogia, existe notícia, mas é a diferença que fez e faz a diferença. Não é comum uma pessoa cega chegar a ser juiz, e o fato de ser cega, valoriza, e muito, o que Ricardo Tadeu conquistou.

    Com sinceridade não gosto que retirem a diferença de quem a tem. Uma sociedade inclusiva é aquela que valoriza, dignifica, respeita a diversidade humana.

    Viva ]Ricardo Tadeu, uma pessoa e um cego que valoriza as pessoas com minha deficiência.

    Atenciosamente,
    Marco Antonio de Queiroz – MAQ.

  3. Muito bem dito, Camila!
    Mais respeito e menos assombro com o “Desembargador cego” . Ricardo Tadeu nada mais e do que uma pessoa como todas. E ponto final!

  4. Olá Marco Antônio,

    Agradeço, primeiramente a sua participação no Blog. O espaço é democrático e aberto às discussões, tomei, então, a liberdade de lhe oferecer uma réplica.

    Sem qualquer sombra de dúvidas, valorizo a diversidade humana e, além disso, acredito que é a partir deste princípio que formaremos uma sociedade inclusiva. Posso ter sido mal interpretada, mas me preocupo com a posição assistencialista que a mídia reproduz. Este fato, ao meu ver, apresenta as pessoas com deficiência como incapazes de exercerem sua autonomia e independência. No caso repercutido sobre o procurador Ricardo Tadeu, a deficiência “soa” mais alto do que seus próprios méritos profissionais e pessoais.

    Também não acredito que devemos “normalizar” as pessoas com deficiência, pois o termo “normal”, na minha opinião, não é plausível de uma definição concreta. E, também, não espero que a deficiência seja o “pano de fundo” das participações sociais. Todos somos diferentes e devemos conviver naturalmente e democraticamente com estas diferenças. As conquistas adquiridas devem, sim, ser evidenciadas, porém não de maneira a tornar o caso exclusivo e excepcional. Já que o maior objetivo dos movimentos inclusivos é que todo e qualquer cidadão exerça seus deveres e direitos, sem exceções.

    Agradeço, novamente, sua colaboração. Uma vez que é a partir destas discussões que evoluímos cada dia mais.

    Abraços
    Camilla Sartorato

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